O Rugido de Dover: Casa Cheia, Caos na Pista e o Domínio de Denny Hamlin no All-Star Race
A etapa de exibição do All-Star Race da NASCAR Cup Series de 2026 entregou uma mensagem que a categoria simplesmente não tem como ignorar. Logo num domingo à tarde, com uma largada atípica à 1 da tarde no horário da costa leste, o que se viu em Dover foi uma verdadeira declaração de amor da torcida pela pista. Dale Earnhardt Jr. já vinha botando pilha na galera para mostrar engajamento, chegando a pedir abertamente para o pessoal ligar todas as TVs e streamings em qualquer aparelho disponível para inflar os números de audiência e garantir mais corridas assim. Mas a resposta presencial falou ainda mais alto. Numa época em que a direção da NASCAR vive quebrando a cabeça sobre quais praças devem ser priorizadas no calendário do futuro, as arquibancadas completamente lotadas de Dover mandaram o recado perfeito: o apoio a essa pista é absoluto.
O clima nos arredores refletia perfeitamente essa energia. Nas rodas de conversa e nas redes, a galera comentava que os estacionamentos esgotados já desmentiam a rádio peão de que ninguém ligava para uma corrida All-Star ali. O calor castigava bastante, e mesmo sendo uma prova que não valia pontos para o campeonato, a atmosfera estava digna de uma final. Rolou até um desabafo generalizado de que a “Milha Monstro” não merece perder sua corrida regular. E, para a sorte de quem comprou ingresso, o espetáculo na pista acompanhou essa expectativa. Graças a um acerto focado em mais motor e um pacote aerodinâmico com menos downforce (somado à falta das trocas de marcha frenéticas), a corrida entregou possivelmente o melhor produto em Dover em mais de uma década. A única ironia ficou por conta da impaciência de alguns fãs com quem acabou dominando a festa, porque, no fim das contas, foi Denny Hamlin quem jantou o grid de novo.
Pilotando o Toyota número 11 da Joe Gibbs Racing, Hamlin levou para casa o cheque de 1 milhão de dólares depois de sobreviver a uma verdadeira prova de fogo. Aos 45 anos, ele provou que a idade é só um detalhe e se tornou o segundo piloto mais velho a faturar o All-Star, ficando atrás apenas da lenda Mark Martin, que tinha 46 lá em 2005. Essa foi a segunda vitória de Hamlin no evento de exibição (a primeira foi em Charlotte, em 2015) e sua terceira vitória consecutiva no oval de Dover, se somarmos as provas regulares de 2024 e do ano passado. E olha que o domingo dele começou bem tenso: ele chegou a rodar durante a classificação, mas botou a cabeça no lugar, cravou a pole e soube passar ileso pelas inúmeras bandeiras amarelas. Liderou 103 das 200 voltas do último segmento, incluindo os 30 giros finais, e precisou suar a camisa para segurar a ponta. Hamlin admitiu que ter um carro rápido facilita muito a vida, mas a regra de inversão do grid logo após o primeiro trecho de 75 voltas exigiu que ele escalasse o pelotão no braço, lidando com o tráfego pesado e o caos inevitável que essa dinâmica sempre traz.
O pódio em Dover acabou virando uma festa particular da Toyota, que varreu o top 3. Chase Briscoe cruzou a linha de chegada na segunda posição, míseros 0,887 segundos atrás de Hamlin. Para o piloto do carro 19, o resultado teve um gosto absurdo de vitória, já que ele encheu o muro no treino de sábado e a equipe precisou praticamente reconstruir o carro do zero a tempo da largada. Briscoe fez questão de exaltar o trabalho brutal dos mecânicos que devolveram a ele um equipamento super competitivo. Erik Jones fechou o pódio na terceira colocação, milagrosamente saindo inteiro de um engavetamento bizarro de nove carros que encerrou o primeiro segmento. Austin Dillon e o novato Connor Zilisch completaram a lista dos cinco primeiros.
Sobreviver à “Milha Monstro”, no entanto, foi um privilégio para poucos. De um grid de 36 carros, 23 se meteram em algum tipo de confusão, o que forçou a direção de prova a acionar oito bandeiras amarelas. A loucura começou cedo. Logo na segunda volta, um salseiro armado por Ryan Preece no miolo da curva 1 sobrou para Todd Gilliland e engoliu de vez nomes pesados como Kyle Larson, Ryan Blaney, Chase Elliott, Daniel Suárez, John Hunter Nemechek e Michael McDowell. A pancada do Ford número 60 da RFK Racing de Preece no muro externo foi tão forte que a traseira do carro explodiu em chamas. Felizmente, ele saiu ileso, passou ileso pelo centro médico da pista e depois assumiu a culpa pelo desastre nas redes sociais.
Essa carnificina precoce destruiu as chances de muita gente boa, até porque não era permitido usar carros reservas. Chase Elliott, o eterno queridinho da torcida e campeão da edição de 2020, tomou duas pancadas no primeiro estágio e foi obrigado a abandonar. Meio frustrado, ele confessou que viu a insanidade se formando na pista e sabia que deveria ter tirado o pé a tempo. Ross Chastain também não passou da sexta volta do segundo segmento depois de um enrosco envolvendo três carros. O prejuízo frustrou a equipe, já que, segundo o piloto, o equipamento vinha respondendo muito bem ao novo pacote aerodinâmico e o ritmo era promissor.
Quando a prova chegou no último tiro de 200 voltas pelo prêmio milionário, o pelotão já estava reduzido a 26 guerreiros. O desgaste cobrou seu preço. Caras de ponta como Larson, Blaney, Kyle Busch, Brad Keselowski, Bubba Wallace e Christopher Bell precisaram se arrastar no asfalto com carros avariados e nitidamente mais lentos. Larson acabou jogando a toalha faltando 60 voltas para o fim por conta de uma falha na direção hidráulica. Já o mexicano Daniel Suárez, que só entrou na disputa final porque venceu a votação popular, fez o que pôde com seu carro amassado e cruzou a linha de chegada quatro voltas atrás do líder. No final, a etapa de Dover foi brutal, caótica e cheia de altos e baixos para os pilotos, mas entregou exatamente o tipo de espetáculo intenso que a torcida queria ver.




