O futebol adora brincar com o destino e cobrar suas dívidas. Se em 2021 o choro inconsolável de Andreas Pereira após aquele escorregão na prorrogação marcou a glória alviverde e entregou o tricampeonato ao Palmeiras, o roteiro no Estádio Monumental “U”, em Lima, tratou de inverter os papéis. Na noite daquele 29 de novembro de 2025, o Flamengo sufocou o rival, ditou o ritmo com 60,5% de posse de bola contra apenas 39,5% do adversário, e carimbou um 1 a 0 cirúrgico. O tão cobiçado e inédito tetracampeonato da Libertadores mudou de dono, deixando o time paulista a ver navios.
O herói dessa epopeia, no entanto, carregava um peso que as câmeras demoraram a captar. Danilo, autor do gol do título e agora dono de duas taças da competição, deixou o gramado peruano em prantos. Não era apenas a euforia do apito final. Horas antes de a bola rolar, enquanto seu pai viajava com a mãe e os irmãos rumo a Lima para acompanhar a decisão, uma tia do jogador faleceu, forçando o retorno imediato do patriarca ao Brasil. Foi com o coração dilacerado que Danilo pisou no gramado, definiu a América e dedicou a vitória à sua família, provando que o futebol raramente é apenas um jogo.
À beira do campo, a revolução rubro-negra tinha a assinatura de alguém que conhece a Gávea como poucos. Filipe Luís, que pendurou as chuteiras em 2021, precisou de apenas nove meses de ensaio nas categorias de base antes de assumir a pesada responsabilidade de treinar o time principal. Em pouco mais de um ano, o ídolo calou qualquer desconfiança, empilhou três canecos no currículo e igualou a marca histórica de Renato Gaúcho: sagrou-se campeão da Libertadores como jogador (em 2019 e 2022) e agora como técnico. A festa ainda teve contornos de nostalgia quando Julio Cesar, aposentado desde 2018, pisou no gramado trazendo a taça sob o canto uníssono da arquibancada: “Ah, é Julio Cesar”. Além da glória eterna, a campanha impecável injetou uma verdadeira bolada nos cofres cariocas. O Flamengo arrecadou incríveis US$ 33,2 milhões (cerca de R$ 177,6 milhões) ao longo da competição, sendo que só a vitória na finalíssima rendeu um cheque de US$ 24 milhões.
Do outro lado da trincheira, a derrota por 1 a 0 encerrou de forma indigesta o que Abel Ferreira costuma chamar de casamento. Às vésperas de sua terceira decisão de Libertadores, o comandante mais longevo do Brasil havia filosofado sobre seus mais de cinco anos de clube, comparando a relação com o Palmeiras a um matrimônio que envelhece como o vinho, passando pela fase da “ficada”, a lua de mel, a chegada dos filhos e até os inevitáveis atritos. Mas quando a partida acabou, a habitual fúria de Abel contra a arbitragem deu lugar a uma postura paternal. Sabendo que o prêmio de consolação de US$ 7 milhões pelo vice-campeonato não curaria a ferida de seus atletas, o técnico foi a campo apenas para levantá-los, um por um.
Corta para o presente. Com a poeira daquela final já assentada e o relógio correndo na temporada de 2026, o Palmeiras se vê diante de um complexo quebra-cabeça de mercado. A diretoria precisa definir o futuro de doze jogadores emprestados, sendo que cinco desses acordos expiram exatamente neste mês. É uma verdadeira faxina administrativa que moldará o futuro do elenco. O zagueiro Michel, por exemplo, já teve sua passagem pelo Moreirense encurtada por problemas extracampo e foi devolvido sem que o Verdão tenha qualquer intenção de mantê-lo. Já Kaique deixou uma ótima impressão no CD Nacional e pondera se continua em Portugal ou se volta ao Brasil exigindo espaço no time de cima. Naves, por sua vez, deu adeus ao FC Alverca; o Palmeiras até prefere uma venda em definitivo, mas o interesse formalizado do Famalicão pode pavimentar um novo empréstimo com cláusula de compra. Nas outras pontas da Europa, Robson caminha para estender seu vínculo com o Real Betis B por mais uma temporada, enquanto Vitinho virou carta fora do baralho no Santa Clara devido às rígidas regras locais de jogadores estrangeiros e formados no clube.
A lista de pendências, contudo, se estende pelas Américas. Na MLS, Micael é titular absoluto, já deixou sua marca nas redes e tem vínculo com o Inter Miami até novembro. No mercado interno brasileiro, as cifras envolvidas são bem mais parrudas. Bruno Rodrigues soma 18 jogos, um gol e duas assistências pelo Cruzeiro, que detém uma opção de compra salgada na casa dos 5 milhões de dólares (aproximadamente R$ 25 milhões). Caio Paulista, com 16 partidas disputadas pelo Grêmio neste ano de 2026, também possui cláusula de compra, embora os valores sigam sob sigilo. Após um Paulistão de encher os olhos pelo Novorizontino, Rômulo atraiu holofotes, mas nenhuma proposta vantajosa aterrissou na mesa alviverde durante a primeira janela. Gilberto, aos 21 anos, busca seu espaço no Athletico Paranaense, acumulando 15 jogos na conta, mas sem cláusula de compra fixada. Sorriso, da mesma idade, foi rodar na Série B pelo Avaí para ganhar minutagem e já soma 22 partidas, três gols e duas assistências.
Talvez o caso mais emblemático desse imenso êxodo palmeirense seja o de Raphael Veiga. O meia foi cedido ao América do México também com opção de compra, mas, até o momento, os ventos não indicam que os mexicanos vão abrir a carteira para mantê-lo em definitivo. Enquanto o rival carioca ainda colhe os louros de uma América pintada de vermelho e preto, a realidade na Barra Funda exige pragmatismo: entre saídas, retornos e negociações milionárias, o Palmeiras tenta reorganizar a casa para garantir que o seu “casamento” não termine em divórcio.




